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  • Erik Seifer (Pelicano)

O Sound Design dos sonhos

No artigo dessa semana preparado por Erik Seifer (Pelicano), vocês irão conferir a magia por trás das produções que são criadas para te auxiliar no sono, o Lo-Fi Sleepy.



MÚSICA PARA DORMIR


Quando o assunto é a criação de músicas Lo-Fi Sleepy, elementos que estão no plano de fundo acabam sendo fundamentais, por mais irônico que isso pareça. Assim como no cinema o profissional chamado Sound Designer é o responsável por construir um caminho sonoro que acompanhe a jornada visual, pode-se dizer que no Lo-Fi Sleepy elementos como diálogos, ambiência e efeitos sonoros são a ferramenta do produtor musical para guiar um filme na mente do ouvinte.


"É comum a pessoa que procura músicas nesse gênero terem problemas de insônia, dessa forma cada detalhe do Sound Design é muito importante..." colours in the dark

Para Daniel Sander, que explora esse estilo musical em seu projeto “colours in the dark”, quem ouve a música muitas vezes encontra a fuga para um lugar distante em um momento necessário. “É comum a pessoa que procura músicas nesse gênero terem problemas de insônia, dessa forma cada detalhe do Sound Design é muito importante, para de certa forma retirar a pessoa do ambiente que está e levá-la para um lugar relaxante, em que ela se sinta mais confortável para dormir. Isso se vê muito no Lo-Fi, e é algo que já se observava na música ambiente, que a atmosfera criada propicie a dormir. O exemplo clássico é a chuva, quem não adora dormir com barulho de chuva?”


Gabriel Cavalcanti, outro produtor que mergulha no gênero sleepy, também frisa o papel da ambientação em suas faixas. “Eu gosto de ambientar as tracks, colocá-las em algum lugar, seja esse lugar físico - uma noite de lua num acampamento, um dia chuvoso dentro do quarto - ou não - um sentimento, uma viagem psicodélica. As possibilidades são infinitas, existe muito a se explorar; A questão é o quão fundo conseguimos mergulhar nisso.”


"Para a ambientação, gosto de elementos da natureza como chuva, pássaros, rios correntes, ondas do mar, grilos… coisas que me remetem a momentos de paz e reflexão." Billy Wuot

Entre os produtores que conversamos nessa matéria, houve um consenso no que diz respeito a timbres mais agudos. É comum entre os produtores de Lo-Fi, a fim de suavizar a mensagem passada, atenuarem as frequências mais altas, afinal essa é uma região em que a nossa audição é mais sensível.


Além disso, apostam em ritmos mais lentos, como comenta o produtor Billy Wuot “É interessante que a bateria e baixo sejam menos groovadas e menos agressivas também. Com pausas maiores, menos bumbos e substituir (não sempre) a caixa por snaps, side sticks, claps… que naturalmente soam mais agradáveis para esse objetivo. Para a ambientação, gosto de elementos da natureza como chuva, pássaros, rios correntes, ondas do mar, grilos… coisas que me remetem a momentos de paz e reflexão. Gosto de inserir camadas de pads com timbres “arejados”, que dão uma completada legal na imagem stereo”, conta o produtor.


LINEARWAVE E A SUTILEZA DOS DETALHES


"A sutileza e a delicadeza fazem a grande diferença, seja na escolha de timbres e sons que não soem agressivos, até saber dosar o quanto de som e o quanto silêncio são necessários.” Linearwave

Yuri Bastos é a mente por trás do projeto Linearwave, que toma influencias de diversos gêneros musicais, como Downtempo, Bossa Nova e Chillhop. O ponto em comum? A aptidão de transformar sua musicalidade em sensíveis paisagens sonoras através da sua visão do mundo.


“As minhas composições, de forma geral, são paisagens sonoras onde eu busco criar um ambiente imersivo para o ouvinte. A idéia é que as emoções apareçam a partir da vivência da cada ouvinte e das relações que esta cria com a própria experiência auditiva. Cada música acaba sendo um mundo, com sua linguagem e suas possíveis interpretações. E nesse sentido, não vejo diferenças gerais entre músicas 'sleepy' e as mais 'animadas'."

“Quando a gente pensa em música para dormir, nossa imaginação automaticamente vai pender para certas imagens como noite, aconchego, relaxamento, entre tantas outras. A partir daí, buscamos sons e relações sonoras que conversem com essas imagens. Um exemplo é usar uma melodia que remeta a uma canção de ninar.”


Yuri também destaca as escolhas musicais que julga importantes na hora de desenvolver um trabalho mais introspectivo. “A sutileza e a delicadeza fazem a grande diferença, seja na escolha de timbres e sons que não soem agressivos, até saber dosar o quanto de som e o quanto silêncio são necessários. Qualquer elemento mais forte ou mal colocado pode comprometer a imersão.”


Diante disso, Linearwave elenca algumas de suas escolhas favoritas:


  1. Trabalhar os instrumentos em regiões que eles soem mais doces e suaves.

  2. Usar linhas melódicas que fiquem mais no background/plano de fundo e menos "na cara".

  3. Focar nas repetições para ajudar na indução do estado de sono.

  4. No beat, tomar cuidado com o padrão do hihat e principalmente com sons fortes de snare.

  5. Uso de ambiências e foleys para ajudar a criar o ambiente sonoro. Alguns exemplos: sons de chuva, respirações, percussões suaves, sussurros. Nesse caso, vídeos de ASMR podem ser uma ótima inspiração.


A BUSCA POR INSPIRAÇÃO


Para um artista, um dos pontos chave é a busca de referências. Através da admiração que se tem por outros produtores, torna-se possível estabelecer nosso próprio estilo com base no que mais nos interessa em cada produtor. Para Gabriel Cavalcanti, essa história começou bem cedo.


"hoje em dia a inspiração surge nos parceiros produtores, principalmente a galera aqui do Brasil que estão botando geral pra mimir bem tranquilo hahahaha" Gabriel Cavalcanti

“Minhas primeiras referências foram na infância. Eu tinha um CD de músicas para dormir e minha mãe costumava deixar rolando pelo meu quarto. Essa parada ficou no inconsciente e pelo que me recordo, foi despertar com as OSTs de alguns videogames que eu costumava jogar. A catarse mesmo aconteceu durante as experiências no Minecraft... O C418 deu aulas nesse trampo, eu curto pra caralho todas as musicas! Mas hoje em dia a inspiração surge nos parceiros produtores, principalmente a galera aqui do Brasil que estão botando geral pra mimir bem tranquilo hahahaha”


Por existir uma relação bem próxima entre os produtores da cena Lo-Fi brasileira, é comum não se precisar ir para fora para se encontrar inspiração de alto nível. “Acho especial demais os timbres que os produtores tão usando nesses beats. Também aprecio muito a mix e master dos sleepy beats, são diferentes de tudo que já ouvi e eu, particularmente, encaro essa caminhada da mix e master como uma outra grande aventura. É muito bom quando atingimos o objetivo e melhor ainda é quando o resultado supera as expectativas.”, diz Gabriel.


Billy Wuot também se espelha nos colegas da cena Lo-Fi brasileira para construir sua própria sonoridade. “Muitos artistas me inspiram e acabo bebendo de várias fontes para criar algo com minha cara, mas esses daqui estão nas minhas listas de referências nesse estilo de produção, como o próprio Colours in the Dark e Linearwave citados aqui. Dos estrangeiros, posso citar Laffey, Purple Cat, Casiio e Brillion”.


Billy ainda ressalta que é essencial ouvir e anotar mentalmente tudo que agrada no trabalho desses artistas, de forma a encontrar seu próprio jeito de aplicar isso em suas produções.


“Cada produtor me inspira de alguma forma, alguns pelo arranjo instrumental, outros pelos elementos foley aplicados na track, ambientações, composição, efeitos, timbragem”. Billy Wuot

EMARANHADO DE SENSAÇÕES


Para compor uma música mais reflexiva/pessoal, é preciso estar em um estado de espírito específico?


Billy: Acredito que sim. Muitas vezes a inspiração vem de algum momento pessoal e em outras situações, conforme a track vai se desenvolvendo, eu acabo imaginando uma cena para aquela música e ir compondo em volta dessa cena. Como uma trilha sonora de algum curta ou série.


Quais as emoções que você busca trazer através de composições mais sonolentas, e nelas, o que mais se difere do restante da sua discografia?


colours in the dark: Como o gênero envolve a delicadeza e a introspecção, consigo trabalhar questões da minha vida pessoal e do meu passado. É uma terapia também pra mim, um momento de respiração e tranquilidade, e isso ressoa naturalmente nas composições.


Em seu single “one year has passed (look at what we've been through)”, o artista carioca utilizou sua própria voz pra passar a mensagem de que, apesar das dificuldades que passamos, as coisas ficarão bem. “É sutil, mas o próprio cansaço no vocal utilizado é capaz de trazer identificação com os sentimentos representados ali”. A canção marcou 1 ano do projeto Lo-Fi do artista e curador musical.


Na sua experiência com curadoria de listas e compilações, o que as pessoas mais prezam em uma música escolhida para o momento de dormir?


colours in the dark: “A primeira coisa a se entender é que, por conta da suavidade desse momento do dia, é preciso evitar elementos muito rápidos ou intensos. É interessante construir algo bonito mas também não transmitir uma energia muito pesada ou triste, inserindo acordes e melodias suaves que tragam sensações positivas como esperança e acolhimento, e facilitem o sono. Essas são questões que podem passar despercebidas pra quem ouve, mas devem estar sempre na mente do produtor musical na hora de compor um beat desse gênero”


E falando em curadoria, a playlist 'lofi sleep, lofi rain' está prestes a bater o número de 100 mil inscritos, mais uma grande conquista para todo esse trabalho feito com muito profissionalismo por Daniel Sander, que para nós da Lo-Fi Brasil, sem dúvidas, é o melhor curador do mundo. O método de curadoria desenvolvida por ele é incrível e está sendo capaz até mesmo de criar uma comunidade com produtores do mundo inteiro em seu servidor no Discord.


A Lo-Fi Brasil adverte: as músicas a seguir podem lhe causar bastante sonolência!



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